O Homem Global
A ideia de uma sociedade globalizada, nos tempos que correm, provoca as maiores incomodidades, tal é a pluralidade dos pensamentos que nos assalta e a quantidade de perguntas que ficam sem resposta. E com alguma razão, porque nos obriga a refazer os conceitos com os quais temos vindo, melhor ou pior, a tornar inteligível o mundo que nos rodeia.
A começar pela expressão “sociedade global”, contraditória em si mesma. “Sociedade” é um conceito de âmbito restrito que caracteriza os indivíduos que se relacionam entre si tendo por base um conjunto de elementos comuns, pelos quais se sentem como fazendo parte de um mesmo grupo. “Global” é um conceito com características de âmbito mais lato que se aplica à totalidade do espaço geográfico do planeta. Sociedade global é, portanto, uma sociedade que não existe, a não ser que tomemos por base o conjunto da espécie humana, porque, se é “sociedade” não pode ser global, se é “global”, não poderá ser sociedade. Pelo menos por enquanto e enquanto o mapa geopolítico, civilizacional e religioso se mantiver, com as diferenças de formas de vida e de estruturas do pensamento que hoje conhecemos, com a atitude que com ele temos tido.
E, mesmo que as tendências globalizantes apontem no sentido de uma sociedade global futura, estaremos ainda muito longe do dia em que esse seja um conceito operativo. A sociedade só será global portanto, quando o homem, o humano entenda-se, for global.
Ao longo da história, a religião e a política dividiram as responsabilidades da tomada de consciência dos homens enquanto indivíduos de per si e dos homens enquanto sociedades organizadas, mas a consciência dos homens enquanto espécie, foi dimensão não abrangida e, por isso, manteve-se distante das cogitações filosóficas, porque se afastava da realidade quotidiana dos homens de todos os tempos e do pulsar das sociedades.
Ainda assim, vão haver momentos em que essa realidade é aflorada, mas na perspectiva de uma certa imposição dos nossos valores e das nossas regras, aos outros, sempre colocados no lugar passivo da história: é a ideia da conversão dos gentios às nossas crenças “ide e anunciai Cristo até aos confins do mundo”; é a ideia da romanização, em que os valores de Roma se impõem aos povos conquistados do império; é a ideia das cruzadas e da missão cristã no mundo; é a ideia da expansão europeia levada a cabo por portugueses e espanhóis; é a ideia do moderno capitalismo internacional que exporta os seus padrões de desenvolvimento económico em nome das virtudes do comércio internacional livre, suportado pelo GATT.
Acções deste tipo impulsionam, de facto, a ideia de globalização e têm dado efeitos significativos na aproximação dos povos, mas têm partido sempre dos critérios que os dominadores impõem aos dominados ou com que os vencedores submetem os vencidos. Com a Revolução Industrial, a globalização assumiu uma preponderância económica que, com o tempo, foi evoluindo para as áreas financeira e das comunicações. Não deixou, contudo, de ter como ponto de partida, as mesmas bases económicas, sociais e políticas.
Os avanços técnicos e científicos tornaram o mundo mais pequeno e as relações entre os povos, intensificaram-se e diversificaram-se e, não é crível nem, porventura, desejável que essas tendências se invertam, mas, se se mantiverem os fundamentos actuais, é previsível que os desajustamentos germinem e se desenvolvam, em ruptura, um pouco por toda a parte.
Há uma dimensão individual no homem, em que ele toma consciência de si próprio e da sua liberdade como valor absoluto; há nele também, uma dimensão social que o torna consciente do grupo a que pertence e da condição de igual entre os seus membros; mas há no homem, ainda, uma dimensão que o torna membro de uma espécie que ocupa as mais distantes latitudes do planeta, com as condições mais diversas e com padrões de vida estranhos entre si.
Muito esporadicamente o homem se tem dado conta desta sua natureza que requer de si, uma consciência tolerante, relativa por excelência e contingente, que faz da diferença e da aceitação do outro, tal como ele é, um dos valores que melhor a define. A consciência dessa globalidade é o que irá caracterizar o homem global, de tipo novo, autor do mundo globalizado que aí vem, queiramo-lo ou não.
O homem global será aquele que conseguir reunir as suas três dimensões: a tomada de consciência da sua liberdade como valor absoluto; a tomada de consciência dos patamares de igualdade que abrange os grupos sociais de pertença e, finalmente, a tomada de consciência global, de uma humanidade que interioriza as profundas diferenças existentes entre os povos do mundo inteiro, aceitando-as, compreendendo-as e defendendo-as.
Tudo devemos fazer para que o homem global se imponha depressa, antes que o actual promova e acelere a destruição completa e irreversível das diferenças civilizacionais e das condições que as criaram. Criado e desenvolvido, o homem global irá ter como lema a liberdade, a igualdade e a universalidade (ou a diferença), numa trilogia unitária equilibrada na boa tradição constitucional.