Saturday, March 25, 2006

Senhor Martins da Cruz, enxergue-se!

 

O terceiro aniversário da invasão do Iraque que esta semana se comemorou não podia ser mais esclarecedor da erosão que certo tipo de intervenientes na cena política têm sofrido e do desnorte que lhes vai no espírito.

Durão Barroso que já foi Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, Ministro da mesma pasta, Primeiro Ministro e Presidente da Comissão Europeia, vem agora justificar o seu alinhamento nas acções militares dessa invasão, dizendo que acreditou em relatórios que apontavam com toda a segurança para a existência de armas de destruição maciça. De relatórios só conhecemos aqueles que foram realizados pelas várias equipas de inspectores das Nações Unidas, enviados para o Iraque para dirimir essas dúvidas sobre a existência de armas desse tipo e que sempre afirmaram não existir. Mas que relatórios são esses que tanto Bush, como Blair, como Barroso tantas vezes referiram ser seguros e incontornáveis e que agora se apresentam assim tão inseguros e com os quais se quis fazer crer a meio mundo de uma mentira que levou à mais dura e longa guerra da actualidade. Mentiram aos povos dos seus países e ao mundo e mantêm-se em efectividade de funções, como heróis.

Com a irritação desses senhores, Kofi Annan manteve-se firme em só dar o seu aval se se provassem seguras essas suspeições que nunca se confirmaram e, por isso, nunca tiveram a sua anuência. Usaram todos os meios para denegrir a sua imagem, sem nunca o terem conseguido. E como não tenham conseguido entrar por si, entraram em busca de casos de familiares seus para chamuscar o nome do único que cumpriu, escrupulosamente, os limites e os deveres das funções do seu cargo. Cauteloso, firme e prudente. Bush, Blair e Barroso, quando muito, foram levianos, imprudentes, incompetentes e improvisaram. Ou então, agiram de má fé e foram mentirosos. Em qualquer das hipóteses, deviam pedir desculpa, assumir que se enganaram e demitirem-se, mas fazem de conta que nada se passou de muito importante, que são irrelevantes as consequências dos seus actos.

O Dr. Martins da Cruz que era Ministro dos Negócios Estrangeiros desse tempo, cargo de que se demitiu por tentar corromper os serviços da administração de que fazia parte para beneficiar um familiar seu, que ao longo desses dias que se seguiram à revelação da sua tentativa de “cunha” mentiu por diversas vezes aos seus pares do governo e ao parlamento da nação, vem agora, três anos após o início da guerra do Iraque dizer que o secretário geral das Nações Unidas é “desqualificado” e corrupto e que o ex-Presidente da República Dr. Jorge Sampaio não usou para a intervenção no Iraque o mesmo critério da avaliação para a Bósnia. Pasme-se.

Mas o Dr. Martins da Cunha, como é mais conhecido no meio diplomático, ainda fala com esse ar impune, volta a mentir e a ofender o Secretário Geral das Nações Unidas? Mas o senhor como as suas mentiras podem comprometer seriamente o relacionamento de Portugal nas Nações Unidas? Não voltou a ser embaixador e a estar sob a alçada disciplinar do MNE?

Sr. Martins da Cruz, enxergue-se!

Posted by Francisco Carromeu at 19:57:16 | Permalink | No Comments »

Monday, March 6, 2006

Sampaio e os analistas



Sampaio vai ser ex-presidente da República Portuguesa daqui a uns dias e os principais comentaristas da nossa praça, prestam-se a fazer os balanços mais incríveis.  Muitos dos que o maltrataram pelo seu acto de não dissolver o parlamento e convocar eleições antecipadas, indigitando Santana Lopes para formar governo, vieram depois regozijar-se com a vitória do PS com maioria absoluta e considerar que a decisão do PR foi de uma grande ponderação e sabedoria política.  Outros que argumentaram a favor da grande decisão do presidente, que lhe rasgaram elogios de lucidez, imparcialidade e grande sentido de estado, vêm agora afirmar, com a maior das desfaçateses que esse foi o único acto presidencial merecedor de reparo, porque deveria ter, logo ali, dissolvido a Assembleia da República.  Com este tão baixo nível dos nossos analistas políticos, não admira que o nível do nosso jornalismo seja muito baixo. E não há ninguém que os confronte com as suas declarações, ainda há tão pouco tempo? Não exigimos uma memória de elefante, mas também não nos contentemos com uma memória de galinha!  Embora apoie hoje o actual governo, considerei que aquela foi uma má decisão, que o presidente tinha razões suficientes para renovar a legitimidade política do governo, convocando eleições antecipadas. Cabe ao presidente não deixar degradar a governabilidade do país que era previsível com a continuação da governação PSD/PP. Foi uma má solução que fez o país perder um ano.  Disse-o em 2004 e digo-o em 2006, mesmo acreditando que os resultados eleitorais pudessem ser outros. 

 

Posted by Francisco Carromeu at 04:31:32 | Permalink | No Comments »

Sunday, March 5, 2006

Manuel Teixeira Gomes, a história e a imprensa

A imprensa de hoje rasga imensos elogios ao homem e à obra de Manuel Teixeira Gomes, a propósito da viagem que Jorge Sampaio fez a Bougie, cidade onde viveu os últimos dias, que ainda foram algums anos, o presidente da República Portuguesa que, a meio do seu mandato, resignou do mesmo, para não mais voltar, vivo, a Portugal.

 

A imprensa de hoje realça os grandes atributos deste homem superior que serviu o Estado português sempre que a República dele precisou para o desempenho de funções tão altas, como: 1 - a do reconhecimento do regime republicano, logo após a sua proclamação, no território mais difícil, como era a monárquica Inglaterra que tinha recebido os soberanos portugueses, onde se movimentava o antigo embaizaddor português Luís de Soveral e onde tudo se fez para inviabilizar o novel regime português; 2 – a participação de Portugal na Primeira Grande Guerra, quando essa beligerância mais conveio a Portugal e menos conveio à Inglaterra; 3 – o desempenho das funções do mais alto representante da Nação e como garante da unidade entre os republicanos. 

 

Muitas décadas depois da sua morte, a História deu-lhe razão e reconheceu a grande elevação da sua estatura e da qualidade da sua obra literária tal como da sua intenvenção enquanto diplomata e enquanto presidente da República.

 

E não foi só o mundo dos partidos que o derrotou. A imprensa da época tentou desfazer a sua imagem usando todos os meios:

- que era um joguete nas mãos de Afonso Costa, disposto a fazer os fretes políticos que fossem necessários aos jogos partidários do caudilho do Partido Demmocrático;

- que a sua intervenção nas negociações da participação de Portugal na guerra foram de subserviência em relação à Inglaterra;

- que a sua obra literária era se má qualidade e o seu autor, um homem indigno que foi capaz de assinar títulos como “Cartas sem Moral Nenhuma” ou “Novelas Eróticas”;

- que a sua imagem pública não estava à altura das funções presidenciais dadas as suas relações com a mãe das suas filhas.

 

A História pode ter uma memória demasiado longa, mas alguma imprensa tem uma memória curta demais!

 

Posted by Francisco Carromeu at 16:46:08 | Permalink | No Comments »

Friday, March 3, 2006

Quem falou em «guerra de civilizações»?

Agora pegou a moda de classificar a recente crise dos cartoons, como sendo um aspecto de uma guerra de civilizações em que estamos metidos e que o ocidente tudo deve fazer para “defender a sua dama”.

 

O tema foi trazido num outro contexto e agora é aplicado a esmo, vezes sem conta, para sustentar um conjunto de posições anacrónicas, incoerentes e indefensáveis à luz dos mais elementares direitos humanos.

 

Alguns que de início entenderam ser este um tema típico da liberdade de expressão, rapidamente se deram conta que os seus autores não se encontram no seu espaço histórico, mas como continuam a não distinguir a liberdade de consciência das formas que podem assumia a liberdade de expressão, surgiram agora com esta de que este não é um caso de «guerra de religiões», onde eles não entrariam, mas um caso de «guerra de civilizações».

 

É curioso, muito curioso, como ainda há pouco, a propósito da discussão que se gerou a propósito da inclusão da matriz cristã no texto da Constituição Europeia, as mesmas pessoas vieram à ribalta com argumentos opostos daqueles que hoje vêm defender.

 

Não lhes agrada a companhia dos racistas e xenófobos europeus que se empoleiraram na crista da onda que muitos vem engrossando.

 

As consequências de todos estes mal entendidos só gerados por posições irreflectidas de quem se habituou a pensar o suficiente, apenas para sair das confusões em que se mete, mas é pouco profundo nas consequências das suas análises. As consequências ainda são imprevisíveis. Oxalá ainda possamos ir a tempo de evitar males maiores.

Posted by Francisco Carromeu at 02:16:04 | Permalink | Comments (1) »

Thursday, March 2, 2006

Fazer o jogo do terrorismo

por Ana Gomes

 

“Para mim, ateia, religião é ópio. Poderia ridicularizar crentes, deuses ou profetas de qualquer religião, valendo-me da liberdade de expressão. Mas não o faço. Porque seria abusar dela e provocar estupidamente. Porque a tolerância democrática me impõe respeito por quem não pensa como eu. E por simples bom senso: a história mostra que a religião incendeia, porquê atiçar mais conflitualidade?

 

Marcada, mesmo sem querer, pela matriz judaico-cristã, vivi laicamente na Genebra calvinista, na Londres anglicana, no shinto-budismo de Tóquio, na babilónia nova-iorquina e no maior país muçulmano. E foi na Indonésia - onde colegas egípcios desdenhavam do que chamavam «disco-Islão» - que mais respeito ganhei por quem se assumia como crente: percebi como é, em geral, muito séria e consequente a devoção, como são mais apertados os laços familiares e de entre-ajuda social prescritos religiosamente.

 

Percebi também como a ignorância do Islão, a insensibilidade e preconceitos de superioridade ocidentais tinham perversas consequências, transformando em agravos de fé ressentimentos políticos e culturais contra colonizadores e apoios externos de regimes opressivos. Indignei-me com líderes políticos e religiosos incapazes de demarcar a sua religião de actos terroristas perpetrados em nome dela; e admirei a coragem de outros que denunciavam o anti-islamismo da Al Qaeda e Bin Laden e o seu principal exportador, o wahabismo saudita.

 

Foi também na Indonésia que apreendi como é injusto e contraproducente estigmatizar todos os muçulmanos e o Islão pelas interpretações mais reaccionárias deste. Por isso, há meses, no Parlamento Europeu, empenhei-me (e consegui, com apoio socialista) em combater uma tentativa da direita espanhola para incluir num relatório sobre o combate ao terrorismo na UE a noção de “terrorismo islâmico”. Que não existe, assim como não existe «terrorismo católico» na Irlanda. Existem, sim, terroristas que se proclamam defensores de religiões e causas respeitáveis para perpetrar ignominiosos crimes.

 

Os «cartoons» publicados num jornal da extrema-direita racista e xenófoba da Dinamarca lembraram-me as caricaturas nazis contra judeus. Arrepiou-me a displicência do governo de direita daquele país, invocando pretensa neutralidade para recusar distanciar-se de propósitos insultuosos, tornando assim cidadãos e empresas alvo da revolta no mundo islâmico (veja-se, em contraste, o exemplo de demarcacação dos rabinos-chefes de França e Reino Unido) .

 

Uma revolta de que ainda não conhecemos todas as consequências - e já está a morrer gente. Porque a Dinamarca se tornou a face duma Europa ultrajante para milhões de muçulmanos. Muitos europeus desmemoriados (portugueses incluidos), a pretexto da liberdade de expressão e do laicismo, trataram de empolar o insulto generalizado e fazê-lo galgar fronteiras. Em ominosa sinergia com fundamentalistas que se reclamam do Islão e a quem, nesta conjuntura política, no Irão, Síria, Gaza, Iraque, Paquistão, Afeganistão, Indonésia ou cidades europeias, convem cavalgar a indignação, extremar a violência e aprestar a próxima vaga de ataques terroristas.

 

Quem se empenha em concretizar a profecia do “choque de civilizações”, como os fundamentalistas de todos os quadrantes, deita mão à xenofobia e à ofensa de sentimentos religiosos. Quem o justifica, a qualquer pretexto, inclusivé o da liberdade de expressão, faz objectivamente o jogo dos terroristas”. 

(publicado no «Courrier Internacional», edição de 10.2.06 e «http://aba-da-causa.blogspot.com/»[12/02/2006])
 e publicado neste blog com autorização da autora.

Posted by Francisco Carromeu at 14:32:48 | Permalink | No Comments »

Encerramento de Escolas

Grande parte das pessoas que entram na discussão pública sobre a questão da proposta do encerramento de escolas que o Ministério da Educação lançou recentemente, não faz ideia nenhuma das condições de funcionamento de algumas dessas escolas, dos seus resultados pedagógicos, das suas despesas e da sua função relativa na comunidade.

Grande parte das escolas que o Ministério da Educação de propõe fechar não tem 20 alunos (a grande maioria não tem sequer 10), repartidos por quatro turmas correspondentes aos 4 anos de escolaridade, ou mais, se incluir o ensino pré-primário, concentrados em um ou dois docentes, todos em simultâneo, no mesmo espaço.

Coloque-se na posição do aluno: imagina-se a partilhar o mesmo espaço da sala de aula, ao mesmo tempo, com tantas classes?; imagina-se a só poder contar com a sua senhora professora, apenas durante 15 minutos, em cada hora lectiva?; imagina o acompanhamento pedagógico dos alunos destas turmas?

Coloque-se na posição do docente: como é, orientar pedagogicamente 2 ou 4 classes ao mesmo tempo, com alunos de níveis etários tão diferentes, no mesmo espaço?

Coloque-se na posição dos encarregados de educação: é este o ensino que quer para os seus filhos, no início do século XXI; esta escola prepara-os, nas melhores condições, para o prosseguimento de estudos ou para a vida activa?; como são dadas as aulas de educação física nestas escolas?; como são fornecidas as refeições?; como é garantido o transporte?; como é garantida a vililância e a segurança?; como é garantido o acesso às novas tecnologias?

Coloque-se na posição do Estado: como pode ele conviver com taxas de insucesso e abandono escolar, com estas condições, sem se questionar?; como pode conviver com racios de 1 professor para 6 alunos, como tinha ainda há pouco tempo na área da DREL?; como pode conviver com o nível geral de despesa do seu ministério, com resultados pedagógicos e financeiros tão maus?; como pode conviver, com os professores e funcionários, entre os mais mal pagos da Europa, com um orçamento para educação que é dos mais bem pagos da mesma Europa?; como pode o Ministério da Educação gastar bem os seus recursos financeiros, sem alterar alguns destes procedimentos?; como explica a senhora ministra, no conselho de ministros, tanta despesa, tantas queixas, para tão poucos resultados?

É possível fazer muito melhor, gastando muito menos. É possível garantir melhores meios e usufruir de melhores recursos. O Ministério da Educação ainda tem um imenso campo de manobra para poder poder apresentar resultados surpreendentes. Estudar bem os dossiês, ouvir todos os que devem ser ouvidos, mas não pode é dar muita atenção a todos os que apenas se gostam de ouvir.

Posted by Francisco Carromeu at 13:06:41 | Permalink | No Comments »