Sampaio e os analistas

Sampaio vai ser ex-presidente da República Portuguesa daqui a uns dias e os principais comentaristas da nossa praça, prestam-se a fazer os balanços mais incríveis. Muitos dos que o maltrataram pelo seu acto de não dissolver o parlamento e convocar eleições antecipadas, indigitando Santana Lopes para formar governo, vieram depois regozijar-se com a vitória do PS com maioria absoluta e considerar que a decisão do PR foi de uma grande ponderação e sabedoria política. Outros que argumentaram a favor da grande decisão do presidente, que lhe rasgaram elogios de lucidez, imparcialidade e grande sentido de estado, vêm agora afirmar, com a maior das desfaçateses que esse foi o único acto presidencial merecedor de reparo, porque deveria ter, logo ali, dissolvido a Assembleia da República. Com este tão baixo nível dos nossos analistas políticos, não admira que o nível do nosso jornalismo seja muito baixo. E não há ninguém que os confronte com as suas declarações, ainda há tão pouco tempo? Não exigimos uma memória de elefante, mas também não nos contentemos com uma memória de galinha! Embora apoie hoje o actual governo, considerei que aquela foi uma má decisão, que o presidente tinha razões suficientes para renovar a legitimidade política do governo, convocando eleições antecipadas. Cabe ao presidente não deixar degradar a governabilidade do país que era previsível com a continuação da governação PSD/PP. Foi uma má solução que fez o país perder um ano. Disse-o em 2004 e digo-o em 2006, mesmo acreditando que os resultados eleitorais pudessem ser outros.