O conceito de «aldeia global», teorizado há já algum tempo, inscreve-se na mesma linha de filosofias humanistas que vêm, desde há muitos séculos, projectando um mundo em que todos os povos estejam mais próximos. Fazer conviver raças tão diferentes, com religiões tão opostas e hábitos culturais tão estranhos, falando línguas tão incompreensíveis, sempre foi o desejo dos homens de bem que ousaram aceitar perder um pouco de si próprios para poderem conhecer o outro um pouco melhor.
O processo de globalização, tão maltratado nos nossos tempos, é contudo, irreversível. O nível de desenvolvimento científico e tecnológico a que se chegou já não permite grandes recuos em direcção à realidade de povos isolados, incomunicáveis. O mundo é global, a informação percorre o planeta à velocidade à luz, os consumos fazem-se em qualquer parte a partir de produtos oriundos de um sítio qualquer e os indivíduos deslocam-se em viagens intercontinentais, cada vez com mais liberdade, colocando todas as regiões no centro do mundo.
Falamos de tendências globais. Todas as regiões do mundo estão hoje mais próximas, mas não estão necessariamente mais iguais. Este percurso de aproximação devia ser determinado por valores de respeito da identidade dos outros a ritmos aceites pelos valores que cada um desses povos possa comportar, contudo, esse caminho tem sido determinado pelo interesse económico e pelo interesse de domínio que uns querem ter sobre os outros.
As relações norte-sul, no quadro económico internacional, têm agravado essas diferenças em vez de atenuá-las. Neste quadro, têm assumido particular importância a hegemonia tecnológica e o domínio dos instrumentos económico-financeiros, com os quais o norte tem mantido os países do sul amarrados a uma teia de dependências sistemáticas que tem gerado os mais recentes conflitos mundiais. Até aqui, a informação tem sido poupada por este estado de coisas. Tratada como espaço privilegiado de liberdade e como meio eficaz que tem sido, de destruir ditaduras e autoritarismos, todos lhe devemos esse reconhecimento, mas também convém não ignorar que transporta no seu seio alguns elementos que podem ser centrais no estado de desequilíbrio global para que se tem avançado.
E o que se afirma em relação aos países, também é válido para os indivíduos. O mundo devia caminhar no sentido da sociedade do conhecimento, mas o que assistimos é ao triunfo da sociedade de informação. Confundimos os fins com os meios e produzimos uma informação que é fim em si mesma e trata os acontecimentos que veicula como produtos dos órgãos de comunicação que alimenta. Trata-se por isso, de uma actividade equiparada a tantas outras actividades económicas, motoras da desigualdade crescente.
Identificamos alguns desvios que são factores desse desequilíbrio global:
1. A informação tende a resvalar para o campo da propaganda e não respeita o princípio da igualdade. Em vez de veicular os dados de um acontecimento, para que cada um possa ajuizar livremente com a sua consciência, introduz invariavelmente, uma tese, «pronta a consumir». Não trata o cidadão como um ser livre mas como alguém que assumirá na sua consciência e reproduzirá nas suas relações, aquele produto, tal como o consumiu.
2. O conhecimento transmite-se entre iguais, numa procura conjunta na explicação dos fenómenos, na verificação experimental das hipóteses, na remediação dos erros. Essa prática conduz ao debate das ideias e é filha da humildade da aceitação do outro e da vontade de conhecer e da curiosidade do que não se conhece. Mas a generalidade da informação que conhecemos impõe modelos alheios a quem não está à altura de os receber.
3. A informação é quantidade, o conhecimento é qualidade. A quantidade de factos informativos que o cidadão comum regularmente recebe é desproporcionada em relação ao que ele necessita para que possa construir os seus modelos. Muitos desses factos ele irá ignorá-los, mas permanecerão no seu subconsciente perturbando-o na forma de stress ou condicionando-o nas suas escolhas.
4. E, quando era suposto que a informação criasse homens cada vez mais livres e iguais, eis que os temos mais indiferentes, mais agressivos e mais pertencentes ao algures social dos consumidores compulsivos de lixo informativo.
Mas a informação não é a única responsável pelo desequilíbrio global. Pressionada pelos interesses políticos e económicos, a informação está no centro de um complexo sistema que necessita de reguladores institucionais na salvaguarda dos elementares direitos de cidadania. E nessa área, mais uma vez, o tema da informação é central.
Na história da democracia portuguesa, constatamos que datam de 1821 as primeiras preocupações com a regulação da liberdade de imprensa, numa legislação muito interessante que já define e assegura a liberdade de imprensa, condenando quem a viola. Assistiu-se então à proliferação dos jornais liberais onde o debate das ideias novas se começava a fazer. Entretanto, a justiça e os instrumentos de regulação não funcionaram e foi um jornal revivalista, sem escrúpulos, dirigido por José Agostinho de Macedo, um ex-cónego que até a Igreja havia expulsado por imoralidade, que obteve as maiores tiragens.
Ao longo do regime constitucional e na Primeira República, sucederam-se casos semelhantes: as leis foram aprovadas, os instrumentos de regulação foram criados mas, a pressão dos consumidores, por um lado, a inveja, a curiosidade pela intimidade alheia e pelos escândalos e uma infinidade de interesses económicos, políticos etc., por outro, sempre fizeram das leis «letra morta» com a incapacidade da justiça em fazê-las funcionar.
No Estado Novo, a natureza autoritária do regime favoreceu a aplicação discricionária das leis e o resultado foi diverso, pior ainda. Recentemente, temo-nos dado conta de disfunções múltiplas, sem que a justiça e as instâncias de regulação funcionem. Em Portugal e um pouco por todo o lado.
Hoje, lidamos com uma realidade diferente: só existe o que é mediatizado. Empresas, partidos, órgãos de soberania, dependem todos eles da forma mediática como os mesmos tratados, situação que subverte a representação política, altera as regras da concorrência económica, inviabilizando a legitimidade da representação e o sucesso dos produtos de melhor qualidade.
Neste e noutros temas, todos temos as nossas responsabilidades. Cabe-nos o «partir da pedra», a discussão das ideias entre homens livres e iguais, na procura do domínio do tempo para a antecipação dos cenários de futuro. É esse o nosso dever. Sabemos como? Sabemos o quê?